Por Henrique Pereira
No dia 12 de junho de 2026, o governo dos Estados Unidos determinou a suspensão do acesso de estrangeiros aos modelos avançados de inteligência artificial da Anthropic: Claude Fable 5 e Claude Mythos 5. Na prática, uma decisão tomada em Washington foi capaz de retirar do ar, para usuários de outros países, duas tecnologias de IA que já estavam sendo comercializadas e utilizadas por empresas, governos, pesquisadores e organizações em diversas partes do mundo.
O episódio se torna ainda mais grave porque, segundo reportagens internacionais, modelos Claude, da própria Anthropic, foram usados pelos militares dos Estados Unidos em ataques contra o Irã. A empresa que fornece tecnologia para operações de guerra do império teve, em seguida, modelos já disponíveis ao mercado simplesmente vetados ao resto do mundo sob a justificativa de “segurança nacional”. Ou seja: a IA pode ser usada na guerra pelos Estados Unidos, mas não pode ser usada livremente por estrangeiros quando Washington decide que isso ameaça seus interesses.
Essa contradição revela o verdadeiro centro do problema. Não estamos diante apenas de uma discussão técnica sobre segurança, riscos ou mau uso da inteligência artificial. Estamos diante de uma disputa de poder. Quem pode desenvolver? Quem pode acessar? Quem pode decidir? Quem pode usar para fins militares? Quem pode usar para fins civis? Quem tem o direito de desligar a inteligência dos outros?
Durante anos, venderam a ideia de que a tecnologia era neutra, global, aberta e naturalmente benéfica. Bastaria conectar, assinar, pagar e usar. Mas quando o governo norte-americano decide quem pode ou não pode acessar determinada inteligência artificial, cai por terra a fantasia da neutralidade. O que aparece é a estrutura real de poder: plataformas privadas, concentradas em poucas corporações, subordinadas aos interesses estratégicos do Estado que as abriga.
A chamada “nuvem” não está no céu. Ela tem dono, território, legislação, interesses econômicos e comando político.
A Teia Popular nasce exatamente dessa constatação. Soberania digital não é uma palavra bonita para seminários. É uma necessidade histórica dos povos que não aceitam viver ajoelhados diante das big techs.
O caso mostra que a inteligência artificial não é apenas uma ferramenta de produtividade. Ela já é parte da infraestrutura política, econômica, militar, cultural e comunicacional do mundo. Quem controla os modelos controla também parte da capacidade de pesquisar, produzir, automatizar, vigiar, comunicar, organizar e decidir. Quando essa infraestrutura pertence a poucas empresas dos Estados Unidos, o resto do mundo passa a viver sob autorização.
Hoje a proibição atinge dois modelos específicos: Claude Fable 5 e Claude Mythos 5. Amanhã pode atingir um país, uma universidade, uma empresa, um governo, uma organização social ou um movimento político. Pode atingir trabalhadores, sindicatos, jornalistas, pesquisadores e militantes. Pode atingir qualquer um que esteja fora do círculo de confiança do império tecnológico.
É por isso que não podemos tratar a inteligência artificial apenas como modismo, ferramenta de marketing ou brinquedo de produtividade. A IA é uma nova camada da luta de classes. Ela reorganiza o trabalho, concentra riqueza, captura dados, produz dependência e amplia o poder de quem já domina a infraestrutura digital. A pergunta central não é apenas “qual IA devemos usar?”. A pergunta é: quem manda na IA que usamos?
A esquerda, os movimentos populares e o movimento sindical precisam superar duas armadilhas. A primeira é o encantamento ingênuo, que vê toda tecnologia como progresso automático. A segunda é o medo paralisante, que rejeita a tecnologia e abandona o campo de disputa. Nenhuma das duas serve aos trabalhadores.
Precisamos usar inteligência artificial, sim. Mas precisamos usá-la com consciência política, estratégia coletiva e projeto de soberania. Precisamos formar militantes capazes de compreender algoritmos, dados, plataformas, automação e vigilância. Precisamos construir alternativas livres, abertas, cooperativas e públicas. Precisamos disputar infraestrutura, legislação, educação tecnológica e capacidade própria de desenvolvimento.
A Teia Popular propõe exatamente isso: transformar indignação em organização, ideia em ação e pessoas isoladas em força coletiva. Cada Tear, cada núcleo, cada grupo de estudo e ação pode ser um espaço de alfabetização crítica em tecnologia. Não para formar consumidores obedientes de ferramentas digitais, mas sujeitos políticos capazes de compreender e disputar o mundo que está sendo programado.
A proibição norte-americana deixa uma lição cristalina: quem depende integralmente das plataformas dos outros pode ser desligado a qualquer momento. Não basta ter conta, senha e cartão cadastrado. Se a inteligência está fora do nosso controle, também está fora da nossa soberania.
Por isso, defender soberania digital é defender democracia. É defender o direito dos povos de pensar, criar, comunicar, pesquisar e se organizar sem pedir licença às big techs. É defender que os dados produzidos pela sociedade não sejam transformados em propriedade privada de corporações globais. É defender que a inteligência artificial esteja a serviço da vida, do trabalho, da igualdade, da natureza e do bem comum — não da guerra, do lucro e da dominação.
A Teia Popular não propõe isolamento tecnológico. Propõe autonomia. Não propõe rejeitar a inteligência artificial. Propõe disputar seu sentido. Não propõe nostalgia analógica. Propõe organização popular para enfrentar uma nova etapa do poder digital.
Se os Estados Unidos podem usar inteligência artificial na guerra e, ao mesmo tempo, desligar modelos comerciais para o resto do mundo, nós precisamos construir a nossa capacidade de manter acesa a inteligência coletiva dos povos.
Soberania digital já.
Tecendo organização. Construindo soberania.
